24 de abril de 2015

Meu corpo existe!



Gostaria de dizer que não é fácil sair de biquíni por aí quando seu corpo é considerado fora do padrão. Mas nem é porque eu tenha vergonha dele. Na verdade, isso ocorre porque é quase impossível encontrar um biquíni do meu tamanho. 
Durante algum tempo tenho observado as dificuldades que uma pessoa gorda tem para sair de casa. Neste post, falarei sobre tais dificuldades a partir da minha vivência, das minhas experiências.
Pensando numa viagem de férias, a primeira dificuldade é viajar de avião naquelas poltronas minúsculas. Em algumas aeronaves, o cinto de segurança sequer está apto a me proteger em caso de acidentes. Além disso, ainda tenho que lidar com o constrangedor olhar de reprovação das pessoas que viajam ao meu lado, que estão mais indignadas com o meu tamanho do que com o tamanho das poltronas. Se fosse em outra época em que eu não soubesse nada sobre machismo e feminismo, eu me sentiria desestimulada a sair de casa. 

Outra dificuldade é encontrar um biquíni adequado ao meu corpo, antigamente eu usava só maiô porque acreditava que meu corpo "errado" tinha que ser "disfarçado". 
Depois do feminismo e da tomada de consciência da sociedade machista e misógina em que vivemos, eu me dei conta que nós somos diversas em cores, formas e tamanhos e isso é bom.

O que não é bom é tentarem nos padronizar e privilegiar algumas desconsiderando outras. Nos objetificando e nos roubando a humanidade e a dignidade. 
Em 2013 fui para João Pessoa (PB) quando eu estava segura e pronta pra usar um biquíni tendo exatamente esse corpo. Eu encontrei um biquíni que me servia e fui.

Recentemente viajei para Maceió (AL) para comemorar o fim da minha graduação e estava super animada para comprar um novo biquíni. Procurei, procurei, procurei, mas não encontrei. Fato que me levou a pensar, onde estão as mulheres gordas? Elas não vem à praia? Como isso é possível? Que sistema cruel e excludente é esse? 

Algumas pessoas podem pensar que este assunto não é importante e não deve ser pautado, mas pra mim é importante sim, porque (ainda) me impede de fazer um monte de coisas, e também impede e adoece muitas mulheres que se julgam inadequadas para fazer coisas simples como ir à praia. 
Comprar roupa também é uma tormenta. O tamanho G ou GG serve no máximo em alguém que usa 48. Se você usa mais que isso, já era. A única coisa que volta comigo pra casa depois de tentar encontrar algo que me sirva é a frustração. É preciso estar com a cabeça bem legal e não entrar na pira de novo de que a culpa é toda minha por essa situação etc, etc. 

Preciso dizer que não me agarro simplesmente à imagem corporal, ditadura da beleza ou gordofobia e uso-as para me vitimizar, ou para me auto-afirmar, como algumas pessoas podem pensar. Mas falo sobre isso porque faz parte do meu cotidiano e da minha vida. Eu tenho o direito de falar e pautar essas questões se quero modifica-las. 

Falar sobre isso e compartilhar esse relato a partir das minhas inquietações faz parte da minha busca por respeito, dignidade e diversidade.  Posto minha foto e me mostro também como resistência, para dizer que eu existo, que o meu corpo existe, quer algumas pessoas gostem ou não.
Finalizo com as palavras do genial Eduardo Galeano: "O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa".





Dani Maiby tem 31 anos,  é assistente social, feminista e ativista pelos direitos humanos das mulheres.


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