8 de julho de 2014

O vagão da segregação - Sou mulher e voto pelo veto


Eu não me considero uma pessoa que entende de política. Mas não precisa ser muito politizada para se decepcionar com essa notícia, essa foto e essa legenda que vibra uma vitória que se diz “em nome das mulheres”. Em nome de quais mulheres?  


A foto está disponível nesse link

Então vamos falar de representação, vamos falar em números. Na Câmara, a representação feminina hoje é de apenas 45 deputadas contra 468 homens. Nós mulheres somos pouco mais da metade dos eleitores brasileiros. Essa divisão, porém, é muito diferente na representação política. Segundo o Estudo da União Interparlamentar, vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil ocupa o 120º lugar em um ranking da proporção de mulheres nos parlamentos. Ficamos atrás de países islâmicos como Paquistão, Sudão e Emirados Árabes Unidos. O vagão que segrega mulheres de homens no metrô de São Paulo é uma proposta já aprovada pelos deputados estaduais e que aguarda a sanção ou o veto do governador Geraldo Alckmin. Então, baseada nesses números já considero que essa decisão não é em nome das mulheres, não é a nossa voz representada. Entendo também que essa discussão surge de uma demanda absurda de assédio que ocorre todos os dias no metrô e nos transportes públicos em geral. As mulheres trabalhadoras e que usam o transporte passam diariamente por situações humilhantes que vão de olhares que coagem até estupros. Só quem é mulher sabe o quão incômodo é dividir espaço com homens que não nos respeitam. Além disso, existe o medo generalizado do estupro ao voltar para casa à noite, saltar do ônibus ou esperar por ele sozinha no ponto. Enfim, o assédio é realmente inquestionável e nós estamos “de saco cheio”. Mas me soa absurda, em 2014, a proposta de segregação. Segregar é esconder um problema histórico e não resolvê-lo.

Reprodução da internet
Falando de uma outra luta, atualmente para combater o racismo nós usamos de leis que reeducam e garantem o acesso do negro às esferas que sempre foram de dominação dos brancos. Nós usamos da criminalização do racismo, da educação diária em casa e na escola, da luta dos movimentos sociais dentre outras tentativas de reparação histórica da escravidão. Ainda que questionáveis e paliativas essa medidas são de combate e ainda que o racismo exista de forma violenta, nós avançamos muito. No caso das mulheres não é muito diferente. Nossa sociedade é estruturada pelo patriarcado, nossa cultura é machista. Eu e muito provavelmente você que está lendo esse texto foi criado de forma machista. Entre os milhares de privilégios que os homens têm sob nós, está o da violência. Nós somos criadas para ter medo e nos protegermos da violência que eles podem cometer com nossos corpos. Antes mesmo de aprender a ler e nos comunicarmos já aprendemos a nos sentarmos e cruzarmos as pernas para que os meninos não nos vejam. Esse medo de ser reparada atravessa infância, adolescência e a vida adulta. A existência de nossos corpos é suficiente para provocar a violência.
Reprodução da internet


A segregação dos vagões é um soco na cara de todas nós mulheres, e principalmente, das mulheres que participam da luta feminista contra a violência de gênero. É um soco que diz claramente “O assédio acontece, o estupro acontece. Mas nós não vamos lutar contra isso. Vamos segregar vocês, é mais fácil do que educar os meninos e homens a respeitarem vocês. Aceitem”.

A medida é tão absurda que não considera também a violência que pode causar aos transexuais, que se aprovada a lei, mais uma vez terão que ser expostos a humilhações e toda violência causada pela transfobia. A diversidade de gênero existe e, também nesse caso, dividir seres humanos entre homem e mulher significa privar milhares de pessoas do direito de ir e vir. Então ei, senhores deputados e senhor governador, não queiram falar também por eles! E como se não bastasse todo o desrespeito desse projeto, na foto a representação do que seria o vagão exclusivo é cor de rosa. O rosa é tradicionalmente uma cor que reforça normas de gênero e que liga a mulher a um estereótipo frágil, bem diferente da que precisa do metrô para trabalhar, estudar, voltar para casa para cuidar dos filhos, do serviço doméstico e das outras inúmeras tarefas que "nos cabem". E no meio de tudo isso, ainda temos que ter fôlego para lidar com o assédio. Espero, senhor Geraldo Alckmin, que o senhor nos ouça, que olhe para nossa história e perceba que esse vagão representa o cárcere da opressão. Separar as mulheres (as vítimas) é dizer que o problema somos nós e que nós é que devemos ser punidas através da segregação. E os agressores? Continuam livres para assediar. Episódios como esse só reforçam o quanto nossa luta é necessária e nossa voz precisa ser ouvida. A melhor forma de combate é a educação e a punição aos agressores. Eu sou mulher e voto pelo veto. Lance essa campanha #vetaalckmin.


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