6 de fevereiro de 2015

Maternidade - O lado B



Eu ouvi durante a gravidez inteira o quanto era bom ser mãe. Nos últimos meses, mijando a conta gotas de 5 em 5 minutos e cheia de dor só pensava “ela vai nascer logo, está acabando”. Nessa época achava que eu e Rita moraríamos num mundo cor de rosa, cheio de amor e luz, que ela nasceria sabendo mamar e que dormiria noites inteiras. Ledo engano. Tinha o lado B da maternidade, um lado não tão rosa assim que não aparece nos comerciais de TV, nem nas rodas de mães e gestantes.

Raramente uma mãe ensandecida tem coragem de profanar a instituição sagrada da maternidade soltando um desesperado: “Chegaaaa! Não aguento mais.”. O máximo que se escuta é um “dá um trabalho...” seguido logo por “mas o sorriso deles é tão compensador”. Não dá trabalho, dá os doze trabalhos de Hércules juntos e misturados a uma roleta russa de emoções, medo, culpa, dúvidas e questionamentos. Tem um lado bom? Tem, um lado maravilhoso, rosa choque com purpurina e cheirinho de bebê, mas esse é nítido, visível, claro e compartilhado com geral, todo mundo fala. Quero hoje é levantar meu tapetinho e varrer pra roda os bastidores insanos da maternidade. 

Nasce a criança e começa o pós parto, uma parte muito tensa da coisa toda. Não digo nem pela barriga molenga, pelo inchaço e pela dança dos órgãos se ajeitando no vácuo deixado pelo bebê. Não vou comentar nada sobre pontos de cesárea ou episiotomia. Tô falando da vontade de chorar e de pedir arrego que dá na gente. Eu me sentia extremamente sozinha mesmo acompanhada. Demorei a me sentir mãe, senti medo da responsabilidade, de fazer alguma coisa errada e culpa por sentir tudo isso. Muita, muita culpa. Ainda hoje sinto e acho que é inerente à maternidade. Quando a gente vê que ser mãe não é só aquele mundo de adjetivos sublimes e fofos e que não vamos vestir branco e permanecer limpas, bem penteadas, maquiadas, sem olheiras e sorridentes como as mães da TV, o nosso mundo cai mesmo. Do pós parto até o terceiro mês é tudo extremamente exaustivo, cansativo, pouco sono, pouco descanso, muita roupa pra lavar, muita coisa nova pra aprender, choro seu e do bebê, e vontade de pedir pra sair.

 
Mamãe e bebê - Arquivo pessoal

 
O sono, pra mim, foi um dos pontos mais tensos do lado B da maternidade. Rita nasceu, acabou sono, acabou dormir noite toda, acabou dormir pesado, acabou sonecas infinitas no celular, acabou sonhar com Johnny Depp. Não se iluda achando que só vai passar a dormir 6 horas e que vai aguentar levar o dia. Não vai, nem uma coisa nem outra. Recém-nascidos mamam de 2 em 2 horas, inclusive de mAdruGaDa (só pra enfatizar). E você não vai aguentar, vai virar zumbi, vai ficar cansada, vai pensar em não ir atender quando ele acordar pela quarta vez na madrugada, vai se sentir culpada por isso. Vai colocar a criança no canto da sua cama pra não levantar no frio e vai se arrepender amargamente do monstro que criará. A falta de sono vai te dar desatenção, lapsos de memória, irritação, olheiras, vontade de matar alguém, falta de saco e vontade de se trancar no quarto (sem o bebê) e entrar em coma por uma semana. 

Atrapalhei seu soninho mamãe?

Amamentar é lindo, delicioso, é uma troca de energia inexplicável, faço isso há 1 ano e não pretendo parar tão cedo, mas ninguém me contou o quanto é difícil no início e o quanto dói. Dói quando o bebê suga, dói o medo de não ter leite o suficiente ou de demorar a descer, doem os pitacos e as mamadeiras de NAM apontadas pra nós, prontas pra calarem nossos filhos e nossas escolhas. Incomoda não poder amamentar em qualquer lugar, os olhares, os assédios (sim, tem homem que aproveita o momento pra "manjar teta"). Quando a amamentação é exclusiva dói renunciar às suas coisas e vontades para estar disponível de 2 em 2 horas por 15, 30, 40 minutos esperando o bebê mamar. No início, até seu corpo entender o quanto de leite ele precisa produzir pode empedrar, é incômodo acordar toda molhada de leite, pingar leite pela casa e cheirar a leite (fresco e golfado) o dia inteiro. 

E o capítulo cocô? Criança caga a dar com pau. E não caga só na fralda, caga na roupa, caga na banheira, no baldinho, em você, na sua colcha nova, na colcha nova da casa dos outros. Ou faz aquele cocô com uma cor estranha, aí você corre pro laboratório, pro pediatra, pros bombeiros com o cocô e a criança a tiracolo. Como se não bastasse, às vezes também fica sem cagar, o que é mais preocupante ainda. Quando você se acostumar com o cheiro do cocô do seu filho ele vai começar a comer comida e você vai descobrir o que é cocô de verdade. Ainda tem a fase do desfralde que dizem ser uma loucura e a da fatídica: “maaanhê, vem me limpar”. Ficou com nojinho só de ler tanto cocô? Não tenha filhos. 



Se não puder abrir mão da sua vaidade também não tenha. Acessório de mãe é fralda. Cordões, brincos, anéis, pulseiras só servem pra enroscar a mão do bebê. Na hora de sair, a roupa que combina é a que dá pra amamentar e a bolsa mais bonita é a que cabe as coisas do bebê. Esqueça unha grande, a não ser que queira arranhar seu bebê pequeno e liso durante o banho. Banho demorado, hidratação, queratinização e qualquer outro procedimento em prol da sua beleza estão fora de cogitação. No máximo você vai conseguir andar limpa e com um rabo de cavalo que esconda a oleosidade dos 5 dias sem lavar cabelos. Creme hidratante depois do banho, aproveitando a fumaça do box não te pertence mais. Esquece. Seu nível agora é se ensaboar tentando escutar se a criança tá berrando. E sair correndo, pelada, louca e molhada pela casa se escutar que ela acordou. Se conseguir sentar no vaso sem ter que levar o bebê junto, dê glória. 


Será que eu dou tanto trabalho?

E tem cólica, dor de vacina, dor de dente nascendo, vômito na sua roupa, crise dos 3 meses, dos 2 anos, crises dele e suas. Tem que cortar mini unhas sem cortar os mini dedos. Tem o fim da sua vida social, tem o sacrifício de ser mãe em tempo integral e não colocar na creche, a angústia e a culpa de ter que colocar. A pressão por trabalhar fora, o preconceito com a decisão de ser mãe em tempo integral. Algumas dessas chatices passam. Algumas. Outras sofrem mutação e voltam pra você em forma de adolescente rebelde. 

Como eu disse, existe o lado rosa purpurinado, mas precisamos, por solidariedade feminina, materna, pelo amor de Deus, de nós mesmas e de nossos rebentos parar de fingir que ser mãe é viver na cápsula eterna da felicidade. É desleal com as coleguinhas. Tem muita coisa nesse lado B que obriga a gente a olhar, pensar, sonhar, planejar, a viver de uma forma completamente diferente e é esse o lance, a viagem, o pulo do gato, a grande mudança interna que ser mãe nos proporciona. Ter filho é um crescimento forçado, mas acredite, apesar de todos os pesares, de todo sofrimento, não poderia haver forma mais linda de crescer. Força na peruca, boa sorte com o lado B e aproveite todo amor do lado A. 


Lado A - Lara e Rita

Lara Beatriz tem 24 anos, 1 filha, 2 gatos, 3 cachorros, 1000 paixões e ideias infinitas. É meio jornalista, meio legal, meio perfeita e mãe por inteiro.



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7 comentários:

  1. Gente, que que texto é este? AMEI!
    Estava precisando de um espacinho para uma mulher colocar em pratos limpos o outro lado, nem tão cor de rosa assim, de ser mãe!
    beijos

    fiamavsa.wordpress.com

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    1. Legal demais né Fiama? Mãe sabe o que fala rsrs. Bjs

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  2. Eu, como feminista, tenho plena certeza de que a felicidade feminina não é ser mãe como a sociedade pinta, mulher realizada de verdade é a mulher bem-sucedida, estudada e independente que não precisa de homem nem de filhos para se sentir plena e realizada. A taxatividade social de dizer que a mulher que não é mãe não é plenamente realizada é pura hipocrisia e opressão de uma sociedade retrógrada, machista e patriarcal que ainda não se deu conta de que chegamos ao século XXI, ano 2015.

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  3. Eu, como feminista, tenho plena certeza de que a felicidade feminina não é ser mãe como a sociedade pinta, mulher realizada de verdade é a mulher bem-sucedida, estudada e independente que não precisa de homem nem de filhos para se sentir plena e realizada. A taxatividade social de dizer que a mulher que não é mãe não é plenamente realizada é pura hipocrisia e opressão de uma sociedade retrógrada, machista e patriarcal que ainda não se deu conta de que chegamos ao século XXI, ano 2015.

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  4. Gostei do seu relato sobre o lado B, ainda não sou mãe e nem sei se pretendo ser, tenho dúvidas e estou aproveitando para ler muito a respeito. Realmente ser mãe não é fácil, é muita responsabilidade e uma missão daquelas, bjos fica com Deus.

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  5. Quanta verdade, por isso mães que fantasiam "o conto de fada da maternidade" são tão chatas. Filho dá muito trabalho e desgasta, felizmente vale a pena.

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