1 de junho de 2014

MV BILL: Soldado da paz no morro e no asfalto



O rapper e ativista social MV BILL foi um dos convidados da 14º Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, São Paulo. Foi lá que eu tive minha primeira experiência como repórter independente. E é aqui, inaugurando esse espaço, que eu conto tudo o que rolou.




MV BILL: Soldado da paz no morro e no asfalto


Cheguei atrasada e sem ter a noção de quantas pessoas estariam lá. Ao parar em frente à entrada do Estúdios Kaiser de Cinema vi a euforia de centenas de crianças e adolescentes que vieram de todos os cantos da região para conhecer ou tietar MV Bill. 

Relembrando sua infância e trajetória ele falou de desigualdade social, racismo e a importância da educação na transformação de sua vida. Do anonimato na favela (onde nasceu e ainda mora, na Cidade de Deus, Rj) ao sucesso nacional, Bill conta tudo demonstrando ter consciência de que está diante de uma maioria jovem e ali é um representante da resistência. Para muitos, um ídolo. Da plateia partem os flashes de câmeras e celulares que também filmam. Palmas, risadas e comentários também não são poupados. 

MV Bill faz música de combate, ou de resgate, como ele mesmo define. É preto, alto, forte e tatuado. De cara fechada parece até bravo. Mas em pouco tempo desmistifica todo o imaginário que se cria em torno dele. Tem um jeito calmo de falar e parece escolher as palavras para não associar combate à agressividade. Quando lhe perguntam sua maior referência de luta ele tira de dentro da camisa um colar com o mapa e as cores do continente africano e diz: Nelson Mandela. 

Fala de suas experiências em tom de conselho de pai e afirma que não é exemplo em tudo. Não pôde estudar, parou na quinta série do Ensino Fundamental para trabalhar e ajudar a mãe. Mas teve que buscar conhecimento para compor e logo começou a ler seus primeiros livros. A biografia de Malcom X, maior líder do movimento negro nos Estados Unidos, foi o primeiro e o que mais o marcou.

Sempre admirei Bill e até ali eu já estava em delírio por conhecer mais de perto alguém tão empoderador da juventude negra, que fez da arte seu manifesto e que quando ganhou visibilidade mostrou que podia mais. O rap foi só uma das formas que encontrou para ser o cidadão e representante admirado que é. Com tudo isso veio o status de celebridade, os assessores e os jornalistas sedentos por entrevistas que lá estavam e que quase me atropelaram diante do meu crachá de mídia independente. Conformada que minha tão sonhada entrevista exclusiva não ia acontecer, fiz o que aprendi com uma professora de faculdade que sempre dizia: “A notícia está em todo lugar, nem sempre está onde todos estão procurando”.

Parei então para observar quem eram os fãs que ali estavam. Foi aí que conheci Luciano, vocalista do grupo de rap É Triste, de Luziânia, Goiás. Ele e o parceiro Ratão viajaram 10hs para trazer o CD com suas músicas até as mãos de MV Bill. Conseguiram. Mas esse já era o fim da missão, e eu quis saber onde ela começava...



Arquivo pessoal - Show em Ribeirão Preto, SP
                                        

640 KM pelo rap

Luziânia fica há 55km de Brasília e tem cerca de 190 mil habitantes. A cidade é também uma das mais violentas do estado. Segundo pesquisa divulgada em 2013 e realizada pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), só em 2011 Luziânia somou 164 assassinatos, registrando uma média de 92,6 mortes a cada mil habitantes. 

Luciano, Eduardo e Ratão. Crédito: Cíntia Souza
É desses números e da realidade que eles representam que vem a inspiração do rap do É triste, nome que faz menção ao sentimento diante de tanta violência. O grupo é formado por Luciano, Ratão e Eduardo, mas já teve outro nome e outros integrantes. Sem apoio financeiro e incentivo cultural do setor público, eles custeiam tudo sozinhos e enfrentam desafios como esse de viajar até Ribeirão Preto para cantar apenas uma música na abertura de um show para divulgar o rap de Goiás. 

Luciano é vocalista e se define como alguém que nunca se conformou com as condições de vida da população pobre e buscou no rap forma de se expressar contra a desigualdade social e a criminalidade. O rap está na vida dele há 12 anos e ele explica tudo com detalhes, me mostrando que produção independente também é trabalho sério. 

“Ir para tão longe cantar às vezes é uma fuga, pois a falta de incentivo em Luziânia muitas vezes é o que leva artistas a desistirem e entrarem para o mundo do crime e das drogas. Aqui não temos rádios que tocam esse estilo e nem espaços para fazer shows. O rap é um ritmo totalmente excluído. Nosso maior espaço de divulgação é na internet”, diz ele.

Mas ao mesmo tempo que reconhece a dificuldade de produzir rap no país e em Luziânia, Luciano deixa claro que desistir ou desanimar não está nos planos do É triste. “O papel do rap é dar espaço para quem precisa falar. Não é só um estilo musical, é ferramenta social. Por isso não vamos parar, não podemos parar’’

Você encontra as músicas do É triste no link.

Os clipes estão disponíveis no Youtube.





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