6 de junho de 2014

Sobre ser jornalista


Há dias venho pensando no tema dessa primeira coluna. São infinitas as possibilidades de assuntos que fazem parte das nossas vidas e que poderiam ser partilhados aqui. Mas antes de falar de qualquer complexo conflito mundial, uma coisa toma meus pensamentos quase que como um conflito permanente, o de ser jornalista.
Durante a universidade tive a sorte de ter amigos que partilhavam de várias dúvidas e sonhos que cruzam o caminho de quem decide ser jornalista. Companheiros de conversas que viravam madrugadas discutindo, concordando e discordando sobre os motivos que nos levam a querer ter essa função e o que de fato ela significa. Falo como uma velha nostálgica, mas pouquíssimo tempo se passou dessas conversas até os dias de hoje. Mas o pouco tempo foi suficiente para perceber várias coisas que eu não tinha noção naquelas madrugadas.


Minha turma  de Jornalismo no primeiro semestre de faculdade - Arquivo pessoal

Eu e esses amigos não entendíamos bem as pessoas que buscavam o jornalismo por outro motivo que não fosse para usá-lo para “mudar o mundo”. Pode parecer romântico (e é), mas hoje, quando olho para trás, vejo que minha escolha se deu pelos sonhos de uma menina que gostava de escrever. Sonhos de viver numa sociedade menos desigual e de contribuir através das palavras para a transformação dessa sociedade que eu sempre enxerguei torta.

Ao longo dos 4 anos vários conflitos surgiram e, à medida que o temido mercado de trabalho ia chegando, os medos cresciam e muitas vezes o jornalismo era um caso de amor e ódio numa montanha russa. Ainda é e creio que sempre será. Me esforcei e não consegui lembrar para homenagear quem me disse (em uma dessas crises) algo que me marcou: “Eu não quero só escrever um bom texto, deitar a cabeça no travesseiro e dormir pensando que já fiz minha parte”. 

Eu entendia essa angústia e ainda a entendo, mesmo sabendo que escrever um bom texto e fazer um bom trabalho na minha área é algo de muito mérito. Na época, eu não lembro como olhei para essa questão, mas sempre a carreguei comigo. Acredito que já carregava antes mesmo de prestar o vestibular. Acho que o grande erro de nós, jornalistas inconformados e naturalmente indignados, é pensar que nosso trabalho sozinho tem uma responsabilidade na nossa vida pessoal que é muito maior que a nossa profissão. Muito maior. 

Hoje vejo que o jornalismo não é aquela capa de super herói que a gente veste 24hs por dia. Não é e não precisa ser. Eu amo meu trabalho, mas ele não precisa me definir enquanto ser.
No teatro, outra paixão - Arquivo pessoal

Sim, eu sou jornalista. Mas sou também uma mulher criada por uma família que me ensinou valores específicos. Sou feminista, luto e me solidarizo com a defesa dos Direitos Humanos. Sou uma apaixonada pelo teatro e ainda quero ser atriz profissional. Sou a neta das minhas avós e a amiga dos meus amigos. Eu sou alguém prestes a fazer 23 anos que fala sério e ainda faz um monte de burradas. Sou aquela que tem vontade de ser mãe de 3 meninos, mas que às vezes acha que vai valer mais a pena cair no mundo viajando com uma mochila. Enfim, sou um tanto de coisa que não cabe no rótulo de jornalista. 

Acho que estou dizendo tudo isso para tentar explicar o que vivo diante de um jornalismo que precisa dançar conforme a música de um mercado em crise e um mundo em transformação. O jornalismo me define, mas não é só ele. Existem outros infinitos caminhos para colocar o mundo de cabeça para baixo e fazer a minha parte enquanto agente de transformação.

Ato contra o "Estatuto do Nascituro"em Ouro Preto, MG Foto: Thamira Bastos
O jornalismo é uma profissão, mas não é só isso e o jornalismo é um monte de coisa, mas às vezes é só mais uma profissão. Se escrever um bom texto não lhe basta para deitar a cabeça no travesseiro e sentir que fez sua parte (e que bom que não nos basta), tire sua capa de super herói da informação e vá à luta. Muitas vezes percebi que todas as outras coisas que definem alguém que é jornalista são mais interessantes do que o jornalismo que o define (rs). Existem os apaixonados por moda, esporte, assessoria de imprensa, comunicação empresarial, design e etc. Todos podem ser os jovens cheios de sonhos que não precisam da capa de Clark Kent para serem seres humanos transformadores.

Enfim, sejamos. Seja o que quiser. Não carregue o peso de um trabalho frustrado e infeliz porque você colocou nele uma responsabilidade maior que lhe cabe numa sociedade capitalista fundamentada na exploração e no egoísmo. Seja você além do seu salário e do que a sociedade diz que te define. Seja médico, seja assistente social, seja professor, mas primeiro seja gente, para isso nunca precisou de diploma.

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