16 de junho de 2014

Transmulher, a mulher que é

Foi uma indicação de última hora, a outra entrevistada desistiu. Ela me recebeu sem saber direito o que eu queria e sem nunca ter me visto, mas em nenhum momento demonstrou desconfiança, e nem se importou quando eu liguei o gravador antes mesmo de começarmos a conversar. Sem saber, ela já estava pronta. Olhando no fundo dos meus olhos, me dando a segurança que eu gosto de sentir ao conversar com alguém. Ela, nasceu ele, mas isso, que eu achei que ia ser importante na nossa conversa, se torna insignificante perto da mulher que se apresenta diante de mim, ELA.


Começamos pela infância. E ela me conta com naturalidade que, aos doze anos, sozinha e escondida, procurou e achou o pai que não conhecia. Através de um bilhete antigo que a mãe guardou quando ainda estava grávida, chegou a cinco nomes pelo Brasil, e depois ao pai. Eles se encontraram e se conheceram, mas mesmo ainda muito jovem, ela já sabia quem ela era. “Ele queria que eu fosse alguém que eu não era, e eu não queria ser aquilo”. O pai não a aceitou e eles se distanciaram novamente. 

Sobre a mãe, reconhece que, se nada nunca lhe faltou, foi pelo esforço da enfermeira que com muito trabalho, sempre criou a filha sozinha. Mas admite, existe aí uma relação conturbada. Hoje menos, talvez por ela já ser completamente independente e alguém que ao longo da vida, desde muito cedo, se impôs enquanto mulher.
Camila - Arquivo pessoal

“Minha mãe queria me domar, queria me dominar de um jeito que ela achava que eu tinha que ser, e eu nunca fui assim”. Sem que eu pergunte, ela mesma explica seu lado e se define como autêntica, geniosa, de personalidade muito forte, com essa mania de ser muito independente, sabe? E isso fica claro quando conta que,à medida que ia se descobrindo, resolveu por enfrentar logo o que sabia que teria que enfrentar.

Aos 13 anos decidiu assumir o namoro com um menino na escola. O preconceito se desvelou, a mãe foi chamada pela diretora e ficou meses sem conversar com a filha.Mas segundo ela, isso não foi um trauma, pois sempre foi muito feminina, sempre se sentiu assim, menina. E pela maneira como era desde sempre; seu corpo, sua voz, seu jeito e seu comportamento, muitas vezes quem a conhecia não a reconhecia como sendo de outro jeito, só se ela contasse. E quando contava, muitos se surpreendiam. 

O telefone toca, estamos no salão de beleza dela, que fica embaixo de sua casa, ambos próprios e no nome dela, o nome que está na carteira de identidade desde janeiro de 2009, Camila Castro de Lima. Resolvido o problema de agenda da cliente que ligou, ela volta sem perder o foco. Explica que por sempre saber o que queria ser, mulher, talvez as coisas tenham sido mais fáceis, por ter sido bem aceita, a começar por ela mesma, dentro de si. É clara ao dizer que sentiu preconceito na pele e já passou por muitas dificuldades quando mais jovem, mas mesmo assim, acredita que isso a fez crescer.

E a trajetória de Camila transparece um pouco disso. Ela é uma exceção, conseguiu driblar a transfobia e os preconceitos presentes no mercado de trabalho e teve oportunidades como qualquer outra mulher com seu grau de escolaridade. Trabalhou desde os 13 anos, como secretária e depois como atendente de telemarketing, e paralelamente fez um curso técnico de administração, estratégia para arranjar um emprego que desse para pagar um curso de cosmetologia e estética. Conseguiu, estagiou em um banco e aos finais de semana atendia como cabeleireira as amigas e vizinhas no fundo de casa. Aos 18 anos, ela já morava sozinha, pagava o próprio aluguel e dava conta de si, a velha mania de independência... Percebo que o salão que mantém hoje e toda autonomia e respeito que conquistou entre as pessoas que conhece, são frutos daquela menina lá do começo da história, que cresceu vendo que só saber o que se quer ser, não é suficiente, era preciso ir à luta. E ela foi.
Arquivo pessoal

O tom da conversa muda um pouco quando começamos a falar de amor. Mas mesmo assim, Camila fala abertamente de uma decepção amorosa, um amor que não sobreviveu ao preconceito. Estava apaixonada e vivia um relacionamento estável com um rapaz de outra cidade, um lugar pequeno, de interior, com todas as heranças coloniais que essas típicas cidades tem. A família dele a conhecia, mas apesar das insistências dela, ele nunca quis contar como a namorada era quando nasceu. No dia em que a verdade veio à tona, a história se espalhou pelo lugar e foi um tormento, diz. Ela, que já havia desenvolvido uma mulher forte dentro de si, teve que ser ainda mais forte para resistir ao preconceito vindo de todos os lados, da família dele até os desconhecidos vizinhos de bairro, sempre com olhares tortos e cochichos maldosos. Eles relutaram por um tempo,mas dessa vez, o preconceito venceu.

Depois disso quis ficar solteira e sozinha, focada no trabalho. Mas uma paquera antiga reapareceu e insistiu em Camila. Ela se permitiu aceitar as investidas, mas estava fechada para viver uma relação, não acreditava mais em amor e por isso, também não acreditava que aquilo fosse passar de um “namorico”. Mas ele estava apaixonado, conseguiu convencê-la a morarem juntos e pouco tempo depois, a algo que Camila nunca imaginou que fosse acontecer a ela, casaram-se. Quando pergunto o motivo pelo qual ela se deixou envolver mesmo depois de sofrer muito, ela é categórica “Ele sempre foi muito homem, homem de caráter, pois pra ficar com uma mulher como eu, tem que ser muito homem, me assumir do jeito que sou, e ele é assim”Ela mesma preparou tudo para a festa, arrumou o cabelo e se maquiou sozinha no dia e foi, mais uma vez, sem muitos medos, só foi. E ainda bem que foi, descobriu no cotidiano um amor sereno e de troca de carinho, se sente feliz com o homem que Deus escolheu pra ela, como diz.

Álbum de casamento - Equipe Photos e Imagens


Camila é das entrevistadas que por pouco não vira amiga da repórter, conta tudo com naturalidade, é espontânea e entende as perguntas como conversa. E eu quase me descuido com a hora, quero saber tudo, quero conhecer essa mulher. Quero saber como cuida dos quatorze cachorros, do salão, do marido, da casa, das plantas e dela mesma, no meio disso tudo. E ainda tem os filhos, que talvez um dia tenha. Mas ainda dá tempo de falar da sua maior referência de mulher. Com os conflitos que sempre teve com a mãe, a avó materna, Gasparina, sempre foi e ainda é a mulher de sua vida. A voz embarga e as lágrimas surgem quando ela tenta explicar o sentimento. E resume “A minha vó nunca desistiu de mim, quando eu precisava cair, sabia que ela estaria lá pra me apoiar, sempre, só ela” A maior emoção da vida foi ver a avó no altar quando se casou, ali, foi como se um ciclo de coisas ruins se fechasse e outra história recomeçasse, de outro ponto inicial, mais legítimo.

Camila me surpreende ao dizer que, quando a avó morrer, parte dela também morre, pois Dona Gasparina está presente em todas as lembranças de sua trajetória, nos momentos bons e ruins, e se essas lembranças morrem, parte de sua vida também se vai. Me surpreendo talvez por ainda não ter visto naquela mulher extremamente forte decidida, algo que desconstruísse parte de sua independência. Mas como ela mesmo disse em dos momentos da entrevista, é daquelas que, se for pra gostarem, que gostem. E se for pra não gostarem, encanta a plateia. Talvez seja isso, seu lado forte encanta pela grandeza e veemência com que aparece, e o lado “fraco” encanta pela reação de sensibilidade que surpreende, mas que também é motivo de identificação, pois no fundo, apesar de cada uma a sua maneira, somos todas, mulheres.




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16 comentários:

  1. linda história,parabéns a ela por sua luta e garra.

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  2. Obrigada Jéssica pelo carinho .... vocÊ é fantastica um grande beijo !!!

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  3. Desde pequeno convivi com essa mulher de garra, sei que não foi fácil, mais ai está um resultado maravilhoso de muita luta e derrubando todos os obstáculos do preconceito e da vida. Você merece isso e muito mais, te amo e conte sempre com a minha amizade... parabéns Jéssica pelo trabalho, ficou ótimo, beijos!

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    1. Obrigada Luiz Filipe! Continue acompanhando e curta nossa página do facebook: https://www.facebook.com/pages/Desvio-Livre/1459676547603979?fref=ts

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  4. Caaaa..que orgulho de vc!Vc é guerreira e merece todo o reconhecimento do mundo!

    Marina!!!

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    1. Vc tbm é uma guerreira.... a mais fina e elegante q conheço....!!! Bju

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  5. Parabéns querida, lindíssima historia de amor e superação, te aplaudo de pé pelo exemplo de coragem, garra, iniciativa e atitude de fazer o que quer sem medo de nada e nem de ninguém, agradeço a Deus todo momento por ter colocado você na minha vida..grande beijo.

    Tânia

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  6. Linda hisstória, e agora ainda mais podemos admirar o esforço de alguem pra ser quem realmente é....
    Parabéns Camila e continue brilhando nesse caminho que ainda esta por vir!!!

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  7. conheço ela,. sem querer querendo ela e uma grande amiga de verdade, mas nunca conheci a historia dela, fiquei surpreendido e emocionei um pouco, pois tenho um pequeno trauma de vida tbem.,.. mim sinto muito orgulhoso por conhecer ela, e saber quem realmente e esse coraçãozinho bondoso... te adoro camila, te amo real...

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  8. Linda história te admiro muito CA você e um exemplo de vida ��������

    Bjs Luciana Pereira ������

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  9. Quem a conhece,sabe o quanto ela e gente fina.
    Muito bom o texto, escrito de uma maneira peculiar e objetiva, parabéns!

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  10. Que linda!!! Parabéns Camila vc merece td de bom nessa vida, que Deus continue abençoando sua vida seus sonhos e seus objetivos com muito amor!!!! Bjao

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